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IA no trabalho: comece agora ou fique para trás

A IA amplia a criação. Começar agora, com responsabilidade, é urgente.

Wenderson Wanzeller diante do desafio de transformar pensamento em execução.
Wenderson Wanzeller diante do desafio de transformar pensamento em execução.

Uma pessoa com boas ideias já não precisa esperar uma equipe inteira, um grande orçamento ou meses de execução para começar. Com a inteligência artificial no trabalho e as ferramentas ligadas a ela, já é possível pesquisar, escrever, programar, testar, comparar e transformar uma hipótese em algo concreto. A mudança não está chegando: ela já distribui vantagem a quem começou.

Por isso, considero urgente a iniciação em inteligência artificial com toda a capacidade disponível. Não falo de pedir uma frase e encerrar a conversa. Falo de aprender a combinar modelos, dados, arquivos, programas, automações e verificação humana para ampliar o que uma pessoa consegue criar.

Se o trabalho de alguém consistia apenas em conduzir um elevador, o botão absorveu a tarefa central do ascensorista. Se consistia apenas em fazer as quatro operações, a calculadora tornou esse esforço barato e instantâneo. Depois, editores de texto, planilhas e computadores deslocaram o valor da datilografia para quem sabia escrever, organizar, analisar e decidir.

Em cada transição, a tecnologia não encerrou todo o trabalho humano. Ela mudou o lugar em que o valor era criado. Quem aprendeu o novo instrumento passou a fazer mais; quem ignorou a mudança viu sua competência perder espaço.

A lição não é ter medo. É começar cedo

Uma análise da Organização Internacional do Trabalho e do instituto NASK estima que um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à IA generativa. No entanto, o resultado mais provável, segundo o estudo, é a transformação das tarefas, e não a substituição completa das profissões.

Essa conclusão é positiva, mas exige movimento. A transformação favorece quem entende a ferramenta, reconhece seus limites e aprende a redesenhar o próprio trabalho. A prática também se acumula: quem começa agora desenvolve repertório, critérios e processos que não aparecem de um dia para o outro.

A onda já começou. Surfar não significa entregar o controle à tecnologia. Significa aprender a usá-la enquanto ainda existe tempo para experimentar, errar pequeno e construir método.

Eu não precisava de mais ideias. Precisava de braços para executá-las.

— Wanzeller

Eu não ganhei outro cérebro. Ganhei braços

Sempre consegui pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. Há projetos sérios, hipóteses de pesquisa, desafios mentais, passatempos e ideias que surgem sem pedir licença. O limite nunca foi apenas imaginar. Faltavam braços para pesquisar, estruturar, programar, testar, escrever, revisar e transformar cada possibilidade em algo observável.

Os grandes modelos de linguagem, ou LLMs, mudaram essa escala. Ainda assim, o modelo isolado é apenas uma parte do sistema. Ele produz respostas. Para agir de forma útil, precisa de uma estrutura que organize regras, memória, ferramentas, permissões e verificações.

Em linguagem técnica, essa estrutura é chamada de harness. Em linguagem simples, é o conjunto que liga a inteligência artificial ao trabalho real. Se o modelo é o motor, o harness reúne painel, transmissão e ligação com as rodas. Assim, a IA pode abrir arquivos, operar programas, executar etapas, consultar dados, comparar resultados e corrigir o percurso dentro de limites definidos.

As arquiteturas de agentes descrevem essa base como um modelo ampliado com ferramentas, memória e recuperação de informação. Na prática, a IA deixa de produzir apenas uma resposta. Ela passa a ajudar a transformar uma ideia em pesquisa, protótipo, teste, relatório, software ou publicação.

Uma ideia que, sem a IA, não sairia da minha cabeça

A imagem abaixo é um exemplo prático do que quero dizer. Entre muitos pensamentos que surgem ao mesmo tempo, eu queria representar o instante em que um círculo deixa de ser apenas uma forma fechada e encontra a passagem que o transforma em infinito.

Sem essa capacidade de execução, seria apenas mais uma das muitas ideias que jamais sairiam da minha cabeça. Não por falta de valor, mas porque as ideias disputam tempo, técnica e braços. Com a IA e a estrutura de trabalho ao redor dela, consegui descrever, testar, corrigir e materializar o conceito. O pensamento continuou meu; a tecnologia deu forma a ele.

Diagrama criado por Wenderson Wanzeller mostra um círculo dourado que se alonga, recebe uma torção central e se transforma em um símbolo do infinito dourado e prateado.
Uma ideia que poderia permanecer apenas na minha cabeça tornou-se uma imagem que pode ser observada, discutida e aperfeiçoada.

A circunferência começa fechada e estável. Em seguida, ela se alonga. Contudo, o alongamento sozinho não cria o infinito; apenas amplia a mesma fronteira. A mudança decisiva ocorre na torção central, quando o cruzamento abre uma passagem entre dois níveis antes separados.

O dourado e o prateado tornam a transição visível. As partes não desaparecem nem se rompem. Elas mudam de posição e passam a integrar o mesmo percurso. O infinito não nasce apenas do prolongamento. Nasce da possibilidade de transitar.

Vejo a mesma lógica na inteligência artificial. Mais poder computacional amplia a capacidade. O modelo acrescenta linguagem e raciocínio estatístico. Entretanto, a verdadeira torção acontece quando pensamento humano, modelo e ferramentas formam um circuito de execução, teste e revisão. O que parecia falta de tempo, equipe ou braços deixa de ser parede e vira passagem.

Começar pela potência, não pela demonstração

Conversar com um modelo é uma boa porta de entrada, mas não representa toda a tecnologia disponível. A iniciação precisa avançar para problemas reais: pesquisar fontes, analisar documentos, trabalhar com dados, produzir imagens, escrever código, testar hipóteses, automatizar etapas e coordenar ferramentas.

Isso não obriga todas as pessoas a programar. Exige compreender possibilidades, formular objetivos e reconhecer quando a resposta precisa de prova. A fluência em IA nasce quando a pessoa deixa de perguntar apenas “o que ela responde?” e começa a perguntar “o que consigo construir com ela?”.

O melhor começo é um trabalho verdadeiro, pequeno e verificável. Escolha uma tarefa que consome tempo, defina o resultado esperado, entregue à IA apenas as permissões necessárias e compare a saída com uma referência confiável. Depois, aumente a complexidade sem abandonar o controle.

Responsabilidade não é freio. É direção

Usar toda a potência da IA não significa aceitar tudo o que ela produz. Significa saber onde acelerar e onde verificar. Fontes, dados confidenciais, permissões, registros de execução e aprovação humana precisam fazer parte do processo desde o início.

Em um estudo apresentado na CHI 2025, 319 profissionais relataram 936 situações reais de uso de IA generativa. Os autores observaram uma associação entre maior confiança na IA e menor esforço de pensamento crítico. O levantamento é autodeclarado e não prova perda cognitiva, mas apresenta um alerta útil.

A resposta não é usar menos inteligência artificial. É elevar o trabalho humano. Antes da instrução, formulamos o problema. Depois da resposta, verificamos as evidências. Antes da execução, assumimos a decisão. Dessa forma, a cognição deixa de se concentrar na repetição e passa a atuar com mais força no julgamento, na criação e no controle.

O mesmo cuidado vale quando a IA entra nas mensagens pessoais. Quanto mais fácil se torna delegar a forma, mais importante é preservar intenção, memória e responsabilidade.

Autonomia precisa crescer com a capacidade

Também não estamos prontos para depender totalmente de um único modelo ou fornecedor. Preços, regras, indisponibilidades e prioridades comerciais podem mudar. Por isso, processos responsáveis preservam dados, documentam decisões e permitem trocar de tecnologia sem reconstruir tudo do zero.

Modelos de pesos abertos já podem funcionar em infraestrutura controlada pelo próprio usuário. A oferta atual de modelos abertos da OpenAI é um exemplo dessa direção. No entanto, baixar um modelo não produz soberania por encanto. Ainda são necessários poder computacional, segurança, atualização, avaliação de qualidade e governança.

Acredito que a capacidade de executar mais modelos localmente continuará avançando depressa. Não atribuo um prazo exato, porque tarefas simples já funcionam em máquinas acessíveis, enquanto sistemas de ponta ainda exigem recursos importantes. O caminho prudente é aproveitar a capacidade atual e, ao mesmo tempo, construir independência.

O momento de começar é agora

A inteligência artificial não é um convite para pensar menos. É uma oportunidade extraordinária para fazer o pensamento alcançar a execução. Quem começa agora aprende a perguntar melhor, cria critérios próprios, descobre limites e transforma ideias que antes terminavam numa lista de “um dia”.

A passagem já está aberta. Devemos atravessá-la com curiosidade, método e responsabilidade. Esperar que a onda peça licença pode parecer prudência; na prática, é uma maneira bastante eficiente de ficar na praia enquanto o trabalho muda de endereço.

Referência rápida

Termos deste artigo

Conceitos essenciais para compreender como modelos e ferramentas ampliam a capacidade humana.

Inteligência artificial generativa
Tecnologia capaz de produzir textos, imagens, códigos e outros conteúdos a partir de instruções.
LLM
Sigla de large language model, ou grande modelo de linguagem: sistema treinado com grandes volumes de texto para interpretar e gerar linguagem.
Harness de IA
Estrutura operacional que conecta o modelo a regras, memória, ferramentas, permissões e etapas de verificação.
Cognição
Conjunto de processos usados para perceber, compreender, lembrar, raciocinar, decidir e criar.
Modelo de pesos abertos
Modelo cujos parâmetros treinados podem ser obtidos e executados em infraestrutura controlada pelo usuário, conforme a licença aplicável.

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Autoria

Foto de Wenderson Wanzeller

Wenderson Wanzeller

Engenheiro informático, atuário, jornalista, professor e pesquisador

Atua entre crédito, risco, engenharia de software, inteligência artificial aplicada, jornalismo, docência e comunicação estratégica, conectando Brasil e Portugal.

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