Saltar para o conteúdo principal

Acompanhe

Siga o que realmente importa

Receba novos artigos, ferramentas e alterações relevantes. Sem excesso de mensagens.

Já segue? Gerir canais

O e-mail só é ativado após a sua confirmação. Pode deixar de seguir a qualquer momento. Privacidade.

Crédito sem informação é risco invisível

No mercado português, crédito sem informação torna-se risco invisível.

Wenderson Wanzeller escreve sobre crédito e risco no mercado português
Wenderson Wanzeller escreve sobre crédito e risco no mercado português

Ouvir artigo

Versão em áudio

Narração gerada a partir do texto publicado · 4:14 · MP3

Crédito sem informação é risco invisível. Esta reflexão parte da realidade portuguesa, onde a informação bancária estruturada convive com uma zona menos visível: o comportamento de pagamento nas relações comerciais entre empresas.

Em Portugal, o crédito bancário tem mecanismos formais de reporte e análise. Já o crédito comercial, isto é, a venda a prazo entre empresas, muitas vezes depende de histórico informal, perceção de reputação e relações anteriores. É nesse espaço, frequentemente fora dos circuitos formais de análise de crédito, que uma parte relevante do risco se acumula.

O problema não está no crédito. Está na informação que sustenta cada decisão.

Crédito é confiança formalizada. E a confiança, numa economia moderna, depende de informação estruturada.

— Wenderson Wanzeller

O caso português: risco bancário e risco comercial separados

A Central de Responsabilidades de Crédito (CRC) cumpre um papel essencial no sistema bancário português. Ajuda as instituições financeiras a avaliar responsabilidades de crédito e exposição bancária. Mas a sua natureza bancária deixa de fora uma parte importante da realidade empresarial: o crédito comercial concedido entre empresas.

Um banco pode conceder financiamento a uma empresa sem ter visibilidade suficiente sobre atrasos relevantes junto de fornecedores. Um fornecedor pode vender a prazo sem saber que o seu cliente já enfrenta uma pressão significativa no sistema financeiro. Em ambos os casos, a decisão é tomada com uma visão parcial do risco.

Esta separação entre risco bancário e risco comercial cria assimetria de informação. Cada agente observa apenas uma parte do problema, enquanto o risco real se distribui pela cadeia de valor.

Quando cada agente decide com uma visão parcial, o mercado passa a carregar um risco que ninguém vê por completo.

— Wenderson Wanzeller

A assimetria de informação penaliza bons pagadores

A assimetria de informação gera dois efeitos conhecidos na teoria económica. O primeiro é a seleção adversa. Quando não há mecanismos claros de reputação, bons pagadores e maus pagadores tornam-se mais difíceis de distinguir. O mercado reage aumentando preços, reduzindo prazos ou exigindo garantias adicionais. O custo do risco de alguns acaba por ser distribuído por todos.

O segundo é o risco moral. Quando o comportamento de pagamento não tem visibilidade estruturada, o incentivo ao cumprimento diminui. A disciplina de mercado enfraquece.

Num contexto de margens comprimidas e cadeias de valor interdependentes, um incumprimento relevante não permanece isolado. Propaga-se. Uma empresa que não recebe adia pagamentos. O atraso move-se em cascata.

Dados com governação, não exposição indiscriminada

Defender uma melhor circulação de informação não significa defender a exposição indiscriminada de dados. O ponto é outro: criar mecanismos proporcionais, auditáveis e juridicamente enquadrados de reputação e comportamento de pagamento.

No contexto português, qualquer evolução nesta área deve respeitar a privacidade, o RGPD, a finalidade legítima, a segurança, a qualidade dos dados e o direito de retificação. Informação útil para crédito não deve ser sinónimo de opacidade nem de abuso. Deve ser sinónimo de governação.

A informação melhora o crédito, não restringe o mercado

Valorizar o crédito entre empresas significa torná-lo mais eficiente, não restringi-lo. A economia portuguesa beneficia de um mercado em que bancos, empresas e fornecedores tomam decisões com base em dados consistentes e complementares.

Reduzir a fragmentação entre risco bancário e risco comercial não é apenas uma questão técnica. É uma questão de estabilidade e eficiência económica.

Quando a informação circula melhor, o crédito melhora. E quando o crédito melhora, a economia portuguesa cresce com menos fricção, menos surpresa e menos vulnerabilidade sistémica.

Comentários convidados

Leituras de especialistas

Especialistas e amigos são bem-vindos para acrescentar leituras autenticadas e publicadas após curadoria editorial.

Comentar com LinkedIn

Compartilhar

Acompanhe novas publicações com mais frequência no Google.

Adicionar como fonte preferida no Google
Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional — CC BY 4.0

Licença aberta

Salvo indicação em contrário, o texto e as imagens desta publicação, da autoria de Wenderson Wanzeller, estão sob CC BY 4.0. Podem ser reproduzidos, adaptados e utilizados, inclusive comercialmente, com crédito a Wenderson Wanzeller e ligação para esta página. Os materiais de terceiros identificados podem ter condições próprias. Consulte as condições para conteúdos e imagens.

Autoria

Foto de Wenderson Wanzeller

Wenderson Wanzeller

Engenheiro informático, atuário, jornalista, professor e pesquisador

Atua entre crédito, risco, engenharia de software, inteligência artificial aplicada, jornalismo, docência e comunicação estratégica, conectando Brasil e Portugal.

3925 visualizações no total