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Chamaram-lhe hacker. Mas e se ele só souber carregar no Enter?

O estrago pode ser enorme. A competência, nem por isso.

Wanzeller explica a diferença entre hacker e script kiddie.
Wanzeller explica a diferença entre hacker e script kiddie.

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Narração gerada a partir do texto publicado · 4:57 · MP3

Existe uma promoção instantânea no mundo digital: alguém rouba uma palavra-passe, executa um programa pronto e acorda “hacker” na manchete do dia seguinte. Talvez não saiba escrever o código, explicar o ataque ou sobreviver à primeira mensagem de erro sem procurar um tutorial. Mesmo assim, recebeu gratuitamente um título que pode exigir anos de conhecimento para merecer.

O problema não é semântico; é dar crédito técnico a quem talvez tenha demonstrado muito pouco. Uma pedra pode partir uma montra cara, mas ninguém chama o autor de engenheiro de demolição. No computador, curiosamente, o tamanho do prejuízo costuma transformar-se em currículo.

Para a imprensa e a Justiça, esta diferença interessa porque as palavras criam uma perceção de capacidade. Chamar hacker a qualquer cibercriminoso pode transformar um operador de ferramentas, um burlão ou um principiante numa espécie de génio de capuz preto. O crime não se torna menos grave quando lhe damos o nome certo; o criminoso apenas deixa de receber uma promoção.

O tamanho do estrago não mede o tamanho da competência.

— - Wanzeller

O botão não vem com diploma

Existe até um nome antigo e pouco elegante para quem usa ferramentas e scripts de terceiros sem compreender bem o que faz: script kiddie. A própria Europol usa a expressão ao referir-se a jovens com pouca experiência técnica capazes de realizar ataques com ferramentas já disponíveis. O indivíduo pode causar um grande problema, mas isso não significa que saiba construir aquilo que pôs a funcionar.

Profissionais experientes também usam ferramentas prontas, obviamente, porque ninguém precisa de fabricar o próprio martelo antes de pendurar um quadro. A diferença costuma aparecer quando o botão deixa de funcionar: um percebe o mecanismo e investiga; o outro procura outro botão. É uma distinção pequena no ecrã e gigantesca na competência.

Engenharia social não transforma conversa em código

Há ainda o atacante que não quebra sistema algum: quebra a confiança de alguém. Telefona, envia uma mensagem convincente, cria urgência e consegue que a própria vítima entregue uma palavra-passe, um código ou informação sensível — exatamente o tipo de manipulação descrito pelo NIST como engenharia social. Pode ser um excelente burlão, mas isso não prova que saiba explorar uma vulnerabilidade informática.

O computador, aliás, pode ter funcionado perfeitamente. Recebeu uma credencial válida e abriu a porta, como foi programado para fazer. Chamar automaticamente hacker ao autor seria como chamar serralheiro a alguém que enganou o porteiro.

Quando uma caixa de pesquisa parece um ataque a Portugal

Há poucos dias escrevi sobre um exemplo particularmente interessante: o especialista italiano em cibersegurança que não invadiu Portugal. Andrea Mavilla encontrou números de telefone, endereços de e-mail e outros dados de figuras públicas portuguesas em plataformas comerciais de consulta, mas os factos conhecidos não demonstravam qualquer servidor comprometido, defesa tecnológica ultrapassada ou infraestrutura portuguesa invadida. O caso era importante pela exposição dos dados, não pela existência comprovada de alguma operação digna de Mr. Robot.

Este exemplo revela como nasce parte do exagero: nomes importantes, dados sensíveis e a palavra “cibersegurança” entram na mesma frase, e a nossa imaginação fornece o resto. Uma consulta numa plataforma passa a soar a invasão; usar uma credencial passa a ser “hackear”; executar uma ferramenta transforma o operador em especialista. Por vezes, a sofisticação cresce muito mais depressa no vocabulário do que no ataque.

Antes de chamar hacker a alguém, descubra o que fez

Hacker não deveria funcionar como sinónimo automático de criminoso que usou um computador. O próprio RFC 4949 distingue o sentido técnico original do termo e regista como inadequado o seu uso automático como sinónimo de cracker, assinalando inclusivamente a frequência desta confusão no jornalismo. A correção, portanto, já vem de fábrica.

Antes da próxima manchete, vale uma pergunta simples: descobriu uma falha, contornou uma proteção, desenvolveu uma técnica ou demonstrou conhecimento profundo do sistema? Ou conseguiu uma palavra-passe, comprou uma ferramenta, copiou um script e carregou no Enter? As duas coisas podem causar estragos; só uma delas demonstra determinada competência técnica.

Dar o nome correto não absolve ninguém nem reduz a gravidade do facto. Apenas impede que script kiddies, burlões e operadores de ferramentas recebam da imprensa o título que talvez mais gostassem de pôr na própria biografia.

Às vezes, o capuz preto só aparece quando a notícia é publicada.

Referência rápida

Termos deste artigo

Hacker
pessoa com conhecimento técnico relevante sobre sistemas, programação ou redes; o termo não significa, por si só, criminoso.
Cracker
termo histórico associado à quebra de proteções ou ao acesso indevido, embora hoje “atacante” ou “cibercriminoso” sejam frequentemente mais claros.
Script kiddie
utilizador pouco experiente que depende de scripts ou ferramentas criadas por terceiros.
Noob/newbie
principiante numa determinada tecnologia ou comunidade; não significa criminoso.
Lamer
gíria depreciativa para alguém considerado pouco habilidoso ou que aparenta ter conhecimentos que não possui.
Engenharia social
manipulação de pessoas para obter informações, credenciais ou uma ação favorável ao atacante.

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Autoria

Foto de Wenderson Wanzeller

Wenderson Wanzeller

Engenheiro informático, atuário, jornalista, professor e pesquisador

Atua entre crédito, risco, engenharia de software, inteligência artificial aplicada, jornalismo, docência e comunicação estratégica, conectando Brasil e Portugal.

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