Toda a gente gosta de um vencedor. Quando a vitória chega, aparecem os elogios, as aproximações e aqueles que fazem questão de mostrar que sempre estiveram por perto. O sucesso transforma desconhecidos em admiradores e antigos cépticos em testemunhas de uma história que, segundo eles, já apontava para aquele desfecho.
Quase ninguém demonstra o mesmo entusiasmo ao longo do percurso. Antes do reconhecimento, muitos ignoram mensagens, recusam propostas e deixam pedidos de ajuda sem resposta. O trabalho avança sem aplausos, sob incerteza e sem qualquer garantia de recompensa.
Quando olhamos apenas para o vencedor, essa parte desaparece. A história fica mais curta, mais bonita e muito menos verdadeira. A chegada recebe toda a luz; o caminho permanece escondido atrás da fotografia.
Não haverá uma lista negativa. Mas também não haverá amnésia.
— Wanzeller
Antes da admiração, costuma surgir a dúvida
Já percorri este caminho mais de uma vez. No início, algumas pessoas perguntam por que razão escolhi fazer aquilo; outras esperam que eu próprio reconheça o absurdo da tentativa. A pergunta parece simples, mas muitas vezes transporta um aviso: desiste antes que o fracasso se torne público.
Enquanto um projecto não apresenta números, prestígio ou validação, defendê-lo parece quase um demérito. Quem constrói precisa de justificar o tempo, a energia e a confiança depositada numa ideia sem resultados visíveis. Persistir não significa acreditar cegamente, mas continuar o trabalho, corrigir o que falha e suportar a falta de aprovação.
O sucesso também reorganiza a memória
Quando aparecem os primeiros resultados, o tom muda. Aquilo que parecia uma insistência desperta curiosidade, e as pessoas passam a procurar o método e as decisões que fizeram o projecto avançar. Depois de o sucesso se consolidar, surge a frase confortável de quem olha para trás: “Eu sempre soube que chegarias lá”.
Num estudo clássico, Fischhoff e Beyth (1975) pediram aos participantes que recordassem previsões feitas antes de acontecimentos políticos. Depois de conhecerem os resultados, reconstruíram essas previsões na direção do que efetivamente aconteceu. Este mecanismo ajuda a explicar o viés retrospectivo: o passado passa a parecer mais previsível do que realmente era.
Os estudos sobre glória reflectida descrevem outro movimento: as pessoas tornam mais visível a sua ligação a vencedores, mesmo quando pouco contribuíram para a conquista. A vitória não atrai apenas aplausos; também cria proximidades retroactivas. Quem manteve distância afirma que acompanhava em silêncio, mas quem viveu o percurso conhece a diferença entre presença, silêncio e ausência.
O apoio ao longo do percurso exige presença
Aplaudir depois da vitória é simples. O resultado elimina o risco de parecer ingénuo, porque a pessoa venceu, o projecto funcionou e a aproximação tornou-se segura. O apoio ao longo do percurso exige mais, pois chega quando ainda não existe uma história pronta para partilhar.
Esse apoio pode assumir a forma de uma apresentação, uma recomendação, uma conversa honesta ou uma porta aberta no momento certo. Apoiar não significa concordar com tudo nem garantir o sucesso. Significa reconhecer um esforço sério antes que os números tornem esse reconhecimento conveniente.
Vejo empresários, jornalistas, professores, investigadores, influenciadores e artistas na mesma posição. Pessoas competentes enviam propostas, recebem recusas e sustentam projectos que o mercado ainda não aprendeu a ver. Todos reconhecem o fruto quando o trabalho amadurece; poucos recordam quem cuidou da árvore quando ela ainda parecia um ramo teimoso preso ao chão.
Acolher não significa esquecer
Quero deixar algo claro: quem não me apoiar hoje e vier felicitar-me amanhã será bem-vindo. Ninguém tem a obrigação de acreditar imediatamente nas minhas ideias, abrir portas ou colocar a própria reputação ao lado de um projecto incerto. Não pretendo transformar cada ausência numa dívida nem usar o ressentimento como combustível.
Receber bem quem chega depois, porém, não exige esquecer quem esteve presente antes. Quem partilhou um trabalho, respondeu a uma mensagem, fez uma apresentação, ofereceu uma oportunidade ou apresentou uma crítica honesta terá sempre um lugar diferente na minha memória. Não porque tenha comprado uma parcela do resultado, mas porque respeitou a luta antes de ela despertar admiração.
Não vou punir quem esteve ausente, mas também não vou fingir que ausência e presença tiveram o mesmo valor. A gratidão reconhece quem ajudou a preparar a sala quando ninguém tinha a certeza de que haveria festa. Essa memória não cobra uma dívida; apenas preserva a verdade do percurso.
Everybody loves a winner, e quando o sucesso chegar provavelmente não faltarão elogios. A verdadeira escassez surge antes: atenção, confiança e coragem para caminhar ao lado de alguém que ainda não venceu.
Talvez o mundo só precise de aprender a chegar mais cedo: everybody loves a fighter.
Referência rápida
Termos deste artigo
Conceitos que ajudam a compreender a relação entre apoio, memória e reconhecimento.
- Apoio ao longo do percurso
- Contribuição oferecida antes de o reconhecimento tornar uma iniciativa segura ou admirável.
- Viés retrospectivo
- Tendência para considerar um acontecimento mais previsível depois de conhecermos o seu resultado.
- Glória reflectida
- Procura de reconhecimento através da associação a pessoas ou grupos bem-sucedidos.
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